Resíduos de Mineração na Agricultura: Como Estéreis e Rejeitos Podem Virar Insumo
A mineração fornece matéria-prima para praticamente todos os setores da economia. Mas suas operações também geram grandes volumes de materiais que não seguem a rota principal de aproveitamento do minério — os chamados estéreis e rejeitos. Diante dos desafios da economia circular e do uso eficiente dos recursos naturais, cresce o interesse em descobrir novas aplicações para esses materiais, inclusive na agricultura.
Estéril x rejeito: qual a diferença?
Os dois termos costumam ser usados como sinônimos, mas representam materiais distintos:
Estéril é o material in natura descartado diretamente na operação de lavra, antes do beneficiamento.
Rejeito é o material descartado durante ou após o processo de beneficiamento.
A Resolução ANM nº 85/2021 formaliza essa distinção e estabelece os procedimentos para o aproveitamento desses materiais, abrindo caminho para sua valorização dentro da própria atividade mineral (BRASIL, 2021).

Por que nem todo resíduo mineral serve para a lavoura
Dependendo da origem geológica e dos processos de lavra e beneficiamento, estéreis e rejeitos podem conter minerais com potássio, fósforo, cálcio, magnésio, silício e outros elementos de interesse agronômico.
Mas atenção: a simples presença desses elementos na composição total não garante que a planta consiga absorvê-los. A disponibilidade depende de fatores como:
estrutura e grau de alteração dos minerais;
granulometria do material;
interação com o solo ao longo do tempo.
Por isso, o caminho até um possível uso agrícola passa, necessariamente, por uma etapa central: caracterizar antes de utilizar. Isso envolve avaliar composição química, mineralogia, granulometria, presença de elementos potencialmente tóxicos e potencial real de fornecimento de nutrientes.
O que a ciência já mostrou
A pesquisa científica vem demonstrando o potencial de diferentes materiais de mineração para uso agrícola:
Rodrigues et al. (2024) avaliaram rejeitos da mineração de migmatito do Complexo Camboriú e identificaram minerais potencialmente intemperizáveis — como biotita e hornblenda — com interesse para remineralização de solos.
Luchese et al. (2023) testaram pó de basalto proveniente de resíduos de pedreira em soja e milho e observaram mudanças positivas em atributos de fertilidade do solo e no crescimento das culturas.
Bossolani et al. (2021) estudaram coprodutos da mineração de níquel como fonte de magnésio e silício para o milho, com efeitos sobre a disponibilidade desses elementos no solo e sua concentração nos tecidos vegetais.
O ponto em comum entre os estudos: cada material tem suas particularidades e precisa ser avaliado individualmente, sem generalizações. É aí que entram estudos de caracterização mineralógica e geoquímica, ensaios de incubação, avaliações de disponibilidade de nutrientes e experimentos de campo — o conjunto que transforma uma hipótese de aproveitamento em conhecimento técnico aplicável.
Uma oportunidade para mineração e agricultura
Para o setor de mineração, essa abordagem representa uma chance real de valorizar materiais hoje descartados e abrir novas cadeias de aproveitamento. Para a agricultura brasileira, pode ampliar o conhecimento sobre fontes minerais nacionais e apoiar o desenvolvimento de novos insumos — em linha com os objetivos do Plano Nacional de Fertilizantes.
Transformar um resíduo em solução para o campo exige tempo, pesquisa e conhecimento multidisciplinar. Mas a conexão entre mineração e agricultura pode estar exatamente onde hoje se enxerga apenas um material sem uso.

Como a Mineragro Pesquisa Agronômica atua nessa conexão
Na Mineragro, essa conexão é construída por meio da pesquisa. A integração entre mineralogia, ciência do solo e agronomia permite caracterizar materiais, investigar seu potencial agronômico e gerar evidências técnicas para orientar seu aproveitamento de forma responsável.
Mais do que buscar um destino para um material residual, o trabalho é gerar conhecimento para revelar novas possibilidades de uso dos recursos minerais brasileiros.
Perguntas frequentes sobre pesquisa e mineração:
Resíduo de mineração pode virar fertilizante?
Alguns estéreis e rejeitos contêm minerais com potássio, fósforo, cálcio, magnésio e silício, elementos de interesse agronômico. Se caracterizados e comprovados como agronomicamente viáveis, podem servir como remineralizadores de solo — mas isso exige avaliação técnica caso a caso, não é uma regra geral.
Qual a diferença entre estéril e rejeito de mineração? Estéril é descartado antes do beneficiamento do minério; rejeito é descartado durante ou depois desse processo. A Resolução ANM nº 85/2021 regulamenta o aproveitamento de ambos.
Por que é preciso “caracterizar antes de utilizar”? Porque a presença de um elemento nutriente no material não garante que ele esteja disponível para a planta. É preciso avaliar mineralogia, granulometria, elementos potencialmente tóxicos e potencial real de liberação de nutrientes antes de qualquer aplicação agrícola.
Referências
BOSSOLANI, J. W. et al. A by-product of nickel mining as a source of magnesium and silicon for maize nutrition. Agronomy, v. 11, n. 3, 525, 2021. DOI: https://doi.org/10.3390/agronomy11030525.
BRASIL. Agência Nacional de Mineração. Resolução ANM nº 85, de 2 de dezembro de 2021. Dispõe sobre procedimentos para o aproveitamento de rejeitos e estéreis. Brasília, DF: ANM, 2021.
LUCHESE, A. V. et al. Use of quarry waste basalt rock powder as a soil remineralizer to grow soybean and maize. Heliyon, v. 9, e14050, 2023. DOI: https://doi.org/10.1016/j.heliyon.2023.e14050.
RODRIGUES, M. A. et al. Estudos petrográficos e geoquímicos de rejeitos da mineração do migmatito Complexo Camboriú para potencial remineralizador de solo. [Publicação técnica]. Brasília, DF: Embrapa, 2024.


Comentários